quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O seu fusca do seu jeito (parte 5): Ratlook


Poucos são os adeptos deste estilo tão característico e adverso no universo aircooled, mas não são raros, muito menos pouco saudosistas, pelo contrário, compreender o estilo ratlook em um proprietário de fusca é complexo, mas é muito fácil perceber em seu semblante a sua descarada felicidade quando está ao volante ou mesmo perto do seu carro.


Cultura

À primeira vista é algo bem contraditório perceber tanta satisfação com um carro enferrujado, com a aparência desgastada. ou "desleixada", mas o universo rat vai muito além da aparência do carro, é quase como uma cultura.

Não de relaxamento, mas de simplicidade, de anulação da ostentação, de focar na satisfação em curtir o carro e não de se apegar a pequenos detalhes que acabam por frustrar muitos donos de carros dignos de Placa preta. É ter o carro pra colecionar amigos e histórias. Como muito bem colocado por nossos amigos Templários do Asfalto, "carro parado não faz história".

Nenhum dono ou adepto do estilo vai chegar junto do seu carro pra ditar o que está certo ou errado em termos de originalidade, muito menos criticar a ferrugem que se instala em um canto do carro, ou um amassado na lataria. Pelo contrário, chegam junto pra perguntar que história tem por trás destas marcas, sobre o passado do carro ou do quanto ele curte o carro daquele jeito.

Ter um ratlook não é idolatar o carro, nem tratá-lo como troféu, nem tentar manter ele intocado por todos desejando uma redoma de vidro ou um envólucro à vácuo. É saber viver em harmonia com tudo e com todos, é ter o carro como ferramenta de diversão.


Respeito

E quando me perguntam sobre qual o conceito mais adequado sobre o que significa "ratlook"? A resposta é: Respeito. Respeito à idade do carro, às marcas do tempo, à todas as histórias que o carro carrega consigo, respeito à sua resistência por tantos anos de passeios, lutas, aventuras e outras tantas coisas. E é com base neste respeito que os cuidados devem ser considerados. Cuidados básicos para que ele continue a rodar por muitos anos a mais, com segurança e estilo trazendo sempre mais satisfação.

Muitos são os textos, matérias, artigos e etc que tentam contar um pouco desse universo peculiar e tão cheio de paixão e sentimento por parte dos donos e apreciadores, tentando enumerar as características do estilo, mas tudo se resume à deixar o que é visível como está e cuidar da segurança elétrica, mecânica e estrutural. O bom e velho "Menos é mais", em toda sua simplicidade e beleza.


Características

Em resumo e para melhor identificação, as principais características de um ratlook legítimo são:

. Pintura desgastada pelo tempo (pátina);
. Interior original desgastados pelo tempo (bancos, forrações, volante, etc)
. Estrutura perfeita (chassis, assoalhos, etc);
. Rodas de época ou originais;
. Instalações mecânicas e elétricas em perfeito funcionamento (freios, suspensão, motor, chicote elétrico sem gambiarras, etc);
. Suspensão rebaixada (e/ou com eixo dianteiro encurtado)
. Alguns acessórios de época com igual desgaste; e
. Sorriso na cara do dono (essencial)

Falhas de interpretação

Muita gente confunde um ratlook com um "hoodride", sem saber das origens desse grupo americano surgido nos anos 90. O hoodride surgia com uma contracultura, desvinculando-se da tendência da sociedade em ter tudo do bom e do melhor, focando o anticonsumismo, no modo de viver, de ser e de agir de maneira geral e eram adeptos do estilo ratlook, 

É certo que, dentro dessa filosofia de anticonsumo, os carros mais baratos possíveis que representava bem o movimento era o volkswagen, por ser barato e consumir pouco combustível em comparação aos V8 da época. Os VW a ar eram utilizados considerando o seu sentido de criação: um veículo para as massas, com baixo custo e para transporte, simplesmente. Independementemente do estado de conservação, o importante era chegar ao destino. Com o fim do grupo a imagem dos carros no estilo ratolook ficaram vinculados ao seu nome, gerando a interpretação equivocada.


Outra falha de interpretação é achar que um ratlook é um veículo em péssimo estado de conservação, sem ter uma condição mínima para rodar com segurança. Pensar que qualquer carcaça em um ferro velho pode ser colocado nas ruas e "montar" um ratão. Um ratlook, em essência, não se monta, leva-se décadas para chegar no estado.

Além do fato de ter veículos em péssimo estado de conservação é dispor acessórios de todos os tipos no carro com o intuito de torná-lo único. Alguns acessórios de época realmente fazem parte, mas outros penduricalhos que são colocados no carro sem o menor sentido histórico estão sempre aparecendo em exemplares pelo Brasil. Coisas como cabeças de boneca, vassouras, pranchas de surf (em cidades do interior), cadeiras, freezeres, escadas, extintores de incêndio e muitas outras coisas inusitadas.











Mas não é somente lá fora que podemos perceber verdadeiros ratlook nas ruas, no Brasil temos muitos exemplos, inclusive de grupos que mantém a cultura acesa, como exemplos, o Rustedlive de Curitiba, e o The Ratbugz de São Paulo. E pra quem quiser conhecer mais sobre o estilo ratlook, o Ratvolks é um fórum nacional com foco no assunto.

Em terras pernambucanas temos o nosso amigo Alencar proprietário do Queniano, um 68 com todas as suas características originais e marcas do tempo, buscado das bandas do Paraná e agora rejuvenescendo para logo ganhar as estradas do Brasil.
Antes

Durante

Depois

Esse é um assunto que está sempre em pauta, sempre com muitas interpretações diferentes. Aqui está sendo colocada a essência do estilo ratlook, a partir do ponto de vista dos Cangaceiros VW.

6 comentários:

Igor da silva costa disse...

Muito bom chará, não sou adepto do estilo, mas respeito aos carros, donos, e toda essa historia.
Parabéns pela série "O seu fusca do seu jeito", esclareceu muitas duvidas. Acabou de ganhar mais um leitor...

Charuto disse...

Perfeita a sua explicação sobre o assunto, acompanho o movimento desde quando chegou ao Brasil, cheguei manter o meu neste aspecto, porém como comecei a assistir total destoação da essência, decidi reformar o carro.
Nem penso em montar um ratizinho como dizem por aí, pois a estória do meu fusca na minha família vem do inicio da década de 80, com muitas estórias para contar...
Tenho o prazer de conhecer pessoalmente o grande Alencar e alguns do grupo RustLive.

Parabéns e um grande abraço.

Charuto do Espirito Santo.

Rafaelpolaco disse...

muito bacana e explicativo!
parabéns pela matéria!!

Axiológico disse...

Show de bola o blog... Tenho um fusca 76, gosto muito do estilo rat, porém como disseram, aqui no Brasil a tigrada exagera... TODOS os vw postados neste tópico estão na medida certa... lindos... O problema é aqui no Brasil que pegam um fusca, passam a lixadeira ou forçam umas ferrugens muito falsas... A ideia é que o veículo pareça desgastado pelo tempo... porém o pessoal exagera e o carro fica tosco hehehhe

Abraço... Rafael
meu fusca: http://axiologicocarros.blogspot.com.br/2015/12/meu-fusca-1300l-1976-azul-firenze.html

Axiológico disse...

bom fim de ano pra todos.

Kairo Martim disse...

Perfeito. Adoro o estilo... O meu primeiro fusca que comprei tava tão esculhambado que as duas únicas opções para quem não é rico, seria sucata ou rat look. Escolhi a cultura rat... Sou super feliz e já me encontrei com a turma dos Cangaceiros lá no Fuscampina 2015 e 2016...